A Dona Sorte anda brava com o Brasil e apresenta a fatura

 

A Dona Sorte anda brava com o Brasil e apresenta a fatura

Este artigo é patrocinado pela Plataforma Brasil, uma butique especializada em projetos de investimentos e estruturações estratégicas.

Por: Gustavo Chierighini, fundador da Plataforma Brasil Editorial

Caros leitores, a Dona Sorte anda chateada com o nosso Brasil, logo ele que é um país tão sortudo. Mas saibam - andei me informando com alguns especialistas - que chateação de Sorte não é lá uma coisa tão simples. Parece que não se trata de uma discussão qualquer, de um desentendimento trivial. Me disseram que ela é meio brava, e quando contrariada costuma abandonar os seus filhos, e isso não é nada bom para quem conta tanto com ela. Soube também que ela é muito justa.

Me explicaram assim, ela está sempre mais ou menos presente, sempre tentando contrabalançar os efeitos do azar, e faz isso espontaneamente, sem cobrar nada de volta. Porém, não tolera ser tida como líquida e certa, como que fazendo “nada mais que sua obrigação” e é aí que o caldo entorna. Quando se dá conta de que não está sendo valorizada, fica muito triste, depois brava, e no final decide cair na estrada, ou dar um pé em quem não valorizou a sua voluntariosa disponibilidade. Simples.

Mas antes de criticá-la pela decisão em se chatear com o nosso Brasil varonil, vejamos os seus motivos. Sejamos claros, ela nos deu tanto. O maior litoral do mundo, a ausência de inseguranças sísmicas nos protegendo da iminência de catástrofes naturais, a maior reserva de água doce do planeta, clima e terra excepcionais para quase todas as culturas agrícolas, recursos minerais abundantes, governantes que no passado, por mais estranhos que parecessem e questionáveis em muitos atos, se preocuparam em manter a ferro e fogo a nossa unidade e extensão territorial, e é claro depois disso – talvez até mesmo sendo esse mais um golpe da própria sorte – atraímos gente do mundo todo produzindo assim um caldo cultural único, presente apenas em pouquíssimas e robustas nações, e imprescindível ao “soft power” e à economia também por conta da diversidade de distintas capacidades e claro com a devida vantagem demográfica, essencial ao dinamismo econômico.

Mas creio que abusamos, nos aprofundando em crenças vazias, como por exemplo a nossa capacidade criativa, que de fato existe, mas também existe em qualquer lugar onde a adversidade se impõe as soluções. Se o leitor discorda, insisto e sugiro um olhar sobre o cotidiano em Serra Leoa, para ver que a capacidade de improvido e de superação surgem com as adversidades, mas isso em nada remete ao aproveitamento das oportunidades que a Dona Sorte nos legou. Está mais para o fatalismo “vamos sobrevivendo, fazer o que” do que para o construtivo “chegamos lá e queremos manter e melhorar”

A nossa sociedade estigmatiza o perfil psicológico do cidadão previdente, planejado e pragmático. O cumpridor de horários, de normas, de tarefas assumidas, de compromissos “e das leis”, o eficiente. Em ambientes corporativos por exemplo, esse tipo recebe logo o rótulo de “certinho” e “operacional” (já escutei também a expressão “esse é fazedor, não funcionada para a estratégia”), e com isso relegado ao subsolo do esquecimento, do anonimato.

Como se prodígios econômicos, científicos, tecnológicos ou industriais, fossem desprovidos do método, do rigor executório, do “fazedor”.

Rogo para que os momentos críticos que atravessamos com a evaporação econômica e empresarial brasileira batendo na porta e no noticiário cotidiano, com os riscos energéticos que podem nos colocar em um debacle econômico sem precedentes e com o eminente cenário de escassez hídrica, e ainda com tudo isso, permeados por uma das maiores cargas tributárias do mundo (mas desprovidos dos serviços e ações públicas que deveriam corresponder a tanto dinheiro arrecadado) e uma crescente e avassaladora burocracia estatal regulatória, possamos decidir de uma vez por todas em abandonar o improviso, a gambiarra, as crenças patéticas do “povo feliz que não desiste nunca” e incorporemos o caminho da razão e da sensatez, deixando as prisões ideológicas para os bobos de plantão (que sempre existirão, mas que ninguém leva a sério, em lugares para serem levados a sério).

Dessa forma, quem sabe, possamos reatar com a Dona Sorte, que sente muito sono diante de filhos eufóricos quando as coisas vão bem justamente por causa dela, a sorte, mas que no momento está cansada de papo furado e já apresentou a sua fatura.

Mas antes teremos de pagar a conta.

Até o próximo.

A Plataforma Brasil Editorial atua como uma agência independente na produção de conteúdo e informação

 

 

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